O BLOG VERMELHO

25 Março 2008

Mais sobre a liberdade na escravidão

Por acaso, folheando o livro "História do Brasil", do Boris Fausto, encontro isto: "De fato, apesar da precariedade dos números, constatamos que, no fim do período colonial, os libertos ou livres representavam 42% da população de origem africana (negros ou mestiços) e 27,8% do total da população brasileira, enquanto os escravos correspondiam a 38,1% desse total. Segundo os dados do recenseamento de 1872, libertos ou livres eram 73% da população de origem africana e 43% do total da população brasileira, sendo escravos 15% desse total. Livres eram negros ou mulatos já nascidos em liberdade; libertos eram escravos que obtiveram a liberdade no curso da vida. As alforrias ocorriam quando o próprio escravo ou um terceiro comprava sua liberdade ou quando o senhor decidia libertá-lo. O fato de que o maior número de alforrias, mediante pagamento, tenha ocorrido nas cidades indica que nelas existia maior possibilidade de o escravo juntar economias."

17 Março 2008

Quando os livres são o pelego


Na década de 1840, segundo o levantamento da Manoela Carneiro da Cunha, no livro "Negros, Estrangeiros", calculou-se que o Brasil tinha cerca de 7 milhões de habitantes. Destes, cerca de 2,5 milhões a 3 milhões eram negros escravizados. Os "brancos" eram de 1 a 2 milhões (ponho as aspas porque não é possível dizer com certeza quem se dizia branco e era na verdade mestiço). O restantes, de 2 a 3 milhões, eram negros e pardos livres, além de índios.

É curioso que, em geral, a gente ouve muito sobre senhores e escravos no Brasil colonial, mas pouco sobre esses "livres". Há vários números, a própria autora citada acima apresenta uma lista deles, mas o essencial é entender que a parcela de "livres" era significativa.

Esses negros, índios, brancos e mestiços livres desempenhavam um papel muito importante na política do Estado, pelo que se nota na análise da autora. Eram uma espécie de "garantia", na cabeça dos governantes, contra a formação de uma maioria de escravos que poderia se unificar diante da dominação dos senhores. Não se tratava de mera fantasia, algo do gênero tinha acontecido no Haiti no início do século XIX.

Mas o que isso tem a ver com as calças? É que, pensando bem, de certa forma, esses "livres" correspondem a certa camada social que permanece até hoje. Daí a foto acima. Pode observar que os políticos norte-americanos têm se utilizado muito desse artifício de nomear pessoas de origem latina ou negra para legitimar as políticas lamentavelmente conservadoras dos últimos anos.

No vocabulário sindical, fala-se nos "pelegos", que fazem a acomodação no conflito entre patrão e empregado (lembrando o que acontece entre cavalo e sela). Esses "livres" acabam sendo mais ou menos isso, quando não são muito mais. Lembram-se de "Pai contra Mãe", o conto do Machado que citei posts atrás? Não por acaso, os bandeirantes mestiços que caçavam escravos eram chamados de mamelucos. Vale a pena conhecer a origem árabe do termo.

Abaixo, um trecho do manifesto que um grupo de trotskistas/hip-hoppers difundiu pela rede na semana passada, por ocasião da passagem da sra. acima pelo Brasil:

"Condoleeza Rice deve ser rechaçada, especialmente pelas negras e negros
Por Mara do Hip-Hop
A secretária de estado norte-americana, responsável pelo massacre direto de milhares de pessoas no Iraque, e indireto de milhões fruto do espólio imperialista realizado sobre os povos de todo o mundo, assina junto com o governo de Lula um plano de “ação conjunta contra a discriminação racial”. Não poderia haver nada de mais cínico vindo de uma das principais representantes do governo Bush, que em seu próprio país foi o responsável pelas não só pelas péssimas condições de atendimento às vítimas do furacão Katrina que devastou a região de Nova Orleans em 2005, como também enviou a Guarda Nacional armada ameaçando os moradores que permaneciam na região. A brutalidade com que foi tratada a ampla maioria da população composta por negros e pobres chocou o mundo inteiro. Isso sem contar o reacionário plano antiimigração aprovado pelo governo norte-americano, que inclui expulsão dos imigrantes, legalização de grupos armados que realizam verdadeiras caçadas a imigrantes nas fronteiras, e a construção de um vergonhoso muro na fronteira com o México.
Frente a isso, o movimento negro tem que rechaçar ativamente a presença de Condoleeza Rice no Brasil, partindo de uma ampla denúncia da política racista e reacionária que esta executa em seu país e mundo afora, cujos próprios negros são vítimas. É preciso que as negras e negros do país que lutam pela emancipação do povo negro combatam a visão de que Condoleeza Rice seria um exemplo de negra a ser seguido, e atuem no sentido de desmascarar seu papel reacionário, que se concretiza também nas políticas racistas comandadas por Bush. Este rechaço deve se estender ao ministro da cultura, Gilberto Gil, que como parte do governo Lula tomou a tarefa de realizar ao lado da assassina Condoleeza Rice um “tour” pelas ruas de Salvador. Uma vergonha. É preciso que o movimento negro, feminista, organizações de esquerda, estudantis, da juventude e sindicatos se unam para repudiar a vinda de Condoleeza Rice ao Brasil, e denuncie o caráter capacho do governo Lula."

Ressalva seja feita: acho discutível chamar o governo brasileiro de capacho. Acredito que, na conjuntura atual, é imprescindível ter alguém para fazer a mediação com o Império (no futuro, com o fortalecimento da Unasul, ou a criação do Conselho Sul-Americano de Defesa, talvez fique melhor). Mas, atualmente, o que seria de governantes como Chávez ou Morales, sem o apoio, muitas vezes sutil, noutras ocasiões explícito do Brasil?

Tá certo que às vezes a gente esperava mais dos caras (ok, beeeem mais, em certos contextos), mas acho que é hora de bola pra frente: se não ficarmos espertos, a coisa pode é piorar muito depois de 2010.

05 Março 2008

Gog: entrevista no ar


Já está no ar, no seguinte link, a versão eletrônica da revista Cultura e Pensamento n. 3, que traz a entrevista que realizei com Gog, no fim do ano passado. Depois falo mais a respeito.

25 Fevereiro 2008

Atestado de incompetência

Informações importantes estão vindo à tona em São Paulo com escutas da polícia e diversas reportagens sobre os "tribunais paralelos".

Tiraram as pessoas do campo (muitas comunidades saíram à força, como estão demonstrando os estudos sobre os quilombos, sobre os quais já escrevi um tempo atrás), jogaram-nas nas periferias das grandes metrópoles, em péssimas condições de vida, acabaram com a organização comunitária e não colocaram nada no lugar, em troca, só uma polícia mal intencionada para fazer contenção.

O que podia acontecer? Só isso mesmo, que vem à tona em mais detalhes agora, mas todo o mundo sabe que não é nenhuma novidade (no Rio, há relatos sobre isso há décadas, literalmente).

A Justiça e quase todos os serviços públicos no Brasil precisavam aprender com o que ocorre em lugares onde o povo não se perdeu das suas comunidades, como a Bolívia (que está discutindo a justiça comunitária, como já conversamos aqui) ou onde o Estado já está organizado há muito mais tempo, como a Índia.

Na Índia, agora, surge o carro de 5 mil dólares, o celular de 20... Isso é formatar produtos e serviços para atender uma população grande (quase 1 bilhão na Índia). O modelo brasileiro é o de produzir para uma elite, não para a massa. Nossos produtos são caros porque a idéia não era que eles fossem pra todo o mundo, era pra serem só pra alguns e pro resto ficar invejando. Com a queda na desigualdade social nos últimos anos, isso está mudando. Vamos ver se essa boa novidade sobrevive aos próximos governos.

Justiça, saúde, educação, é a mesma coisa: em vez de procurar um modelo mais barato, que sirva pra todos, ficamos por aqui batendo cabeça tentando democratizar o modelo de rico. Assim não vai dar certo. Um juiz, um promotor, um desembargador ganham mais de R$ 20 mil por mês neste país, fácil. São, por baixo, 50 salários mínimos. Num país desenvolvido, o maior salário pago não passa de 20 vezes o menor, esse é um índice de desigualdade ou igualdade social internacionalmente reconhecido. No Brasil, essa diferença chega a 1714 vezes. Mesmo no setor público, segundo o Ipea, o maior salário corresponde a R$ 28 mil e o menor a R$ 175. Veja este artigo do Marcio Pochmann, presidente do Ipea.

Veja o preço de uma simples obra de tribunal! Toda hora há notícias de desperdício, superfaturamento... Este deputado aqui é conhecido pelas denúncias que faz nesse sentido.

É isso: enquanto o setor formal continua com seus padrões irreais para um país que, teoricamente, tem o projeto de ter 186 milhões de cidadãos (hoje, a maioria de nós é, no máximo, habitante do Brasil...), o setor informal viceja. E o informal não é só o camelô, como estamos vendo em São Paulo. Pode ser também o médico, o professor e até o juiz.

É a incompetência da elite brasileira, mais uma vez, esfregada na cara. Mas aí, claro, estou pressupondo que, pelo menos, uma parte dessas pessoas age com intenção, mesmo, de melhorar o país, e não de ajeitar logo o seu e sair fora pra Europa ou a América do Norte...

22 Fevereiro 2008

Desculpas tardias


Estava para chamar a atenção aqui para este fato, ocorrido há uns dias. O governo australiano pediu, pela primeira vez, desculpas oficiais aos aborígenes, os habitantes humanos originais daquela região. O pedido é simbólico, mas o positivo é que abre portas para pedidos de indenização pelas atitudes passadas do Estado australiano.

É um exemplo muito vivo do que a mentalidade racista européia é capaz de engendrar: pra se ter uma idéia, em pleno século XX, o país teve uma política de retirar crianças aborígenes de suas famílias para doá-las para a adoção de famílias brancas. O objetivo era facilitar a "integração" dos aborígenes na sociedade... Tem um texto do John Pilger (o mesmo jornalista que mencionei uns posts atrás) sobre a situação. Está no mesmo livro que eu já tinha mencionado, chama-se "Os Eleitos"

A Austrália posa de país desenvolvido, mas as condições de vida dos aborígenes são péssimas e ainda são alvo de pesadas discriminações. Isso é que é 1° mundo... É só pra eles, só pra eles... Jà sobrou até pra brasileiro por lá...

Enfim, é só olhar a foto pra entender do que estou falando...

Em dívida com a realidade

É um tema árido, parece muito distante do nosso cotidiano, mas vale a pena prestar um pouco de atenção, porque é ali que mora o gato que dá aquele pulo que permite sustentar a desigualdade no país.

Hoje, os jornais estampam em manchete o anúncio do Banco Central de que o Brasil não é mais um devedor, e sim um credor externo, ou seja, o país hoje tem mais dólares em caixa (as chamadas reservas internacionais) do que o necessário para saldar toda a sua dívida externa, o que é um fato inédito na nossa História etc. etc e blablabla.

Onde é que o gato pula? É que, já faz um bom tempo, enquanto uma parte da esquerda ainda continuava gritando aquela rima bacaninha do "Fora já, fora já daqui, o FHC e o FMI", que o grande problema do país passou a ser a dívida interna, não a dívida externa.

A questão é que, hoje, o país paga mais de R$ 200 bilhões por ano (lembrem que o Orçamento total da União é de cerca de R$ 700 bi)para rolar a tal dívida interna... O economista Marcio Pochmann, hoje presidente do Ipea, um instituto público, ligado ao governo, há uns anos bate na tecla: esse dinheiro está indo para a elite brasileira, para cerca de 20 mil famílias, que são donas de grande parte desses títulos (os papéis da dívida).

Uhm... E onde estão essas famílias? Esse é o grande enigma. Ninguém mostra a cara delas. Mas o fato é que grande parte deve ser de brasileiros, não há dúvida - ainda que o dinheiro apareça como sendo de "investidores estrangeiros". Claro, não é segredo pra ninguém que colocar o dinheiro em algum paraíso fiscal no Caribe ou na Europa é bem mais seguro que deixá-lo por aqui. Quando se pergunta sobre isso para o pessoal do Tesouro Nacional, dizem que os papéis estão distribuídos por uma série de fundos, que é o próprio pessoal da classe média brasileira que detém esses títulos, de forma pulverizada etc. Sei...

Mas o que tudo isso tem a ver com o Hip Hop? Oras, esse é o pessoal atrás da cortina, puxando as cordinhas de tantos marionetes que, muitas vezes, alguns de nós passam a vida atacando. "Tem gente que passa a vida inteira travando a inútil luta com os galhos, sem saber que é lá no tronco que está o coringa do baralho": como diria Raulzito...

Ah, a verdadeira dívida do Brasil, sabe a quantas anda? R$ 1,1 trilhão de reais... Ok, o Bolsa Família é um baita programa, mas bom mesmo era tirar essa teta dos velhos maganos de sempre

17 Fevereiro 2008

Globalização pra nóis


Começa amanhã em Mona (perto de Kingston) a Global Reggae Conference, evento especial dentro da série de comemorações que a Jamaica realiza todo ano, em fevereiro, pelo aniversário de Bob Marley. Clique aqui para conhecer o site da conferência e ver o nível das discussões.

Infelizmente, ainda é muito difícil o intercâmbio político e acadêmico entre os países periféricos. Uns anos atrás, o kamarada Hermano Vianna escreveu um texto interessantíssimo sobre isso e sobre as implicações culturais do reggae e do dub. Foi uma das primeiras coisas que me despertou mais fortemente para ouvir com atenção a música jamaicana. Tá aqui o link do texto, Filosofia do Dub. A influência da Jamaica sobre o Brasil é muuuito maior do que se possa imaginar à primeira vista, apesar das dificuldades e da distância.

Lentamente, outras articulações estão surgindo entre os países da diáspora. Este link aqui ajuda a conhecer uma dessas iniciativas, o 3º Festival Mundial de Artes Negras (Fesman). Será em Dakar, no Senegal.

Cartilha do ódio

E eis que, depois de escrever o post de ontem, estava escutando Facção Central e deparo com a letra de "Cartilha do Ódio". Eu já tinha ouvido, mas, enquanto escrevia, não fiz a relação:

"O boy me ensinou a ter cifrão nos olhos,
que vale a mentira da arma química pelo petróleo.
Que o suéter é confortável pro executivo,
mesmo com o algodão colhido por mãos escravas de meninos.
Que não é indigesto o suco de laranja natural,
com o sabor da exploração da criança sem digital.
Que a aids não tem cura porque não é negócio,
o coquetel é a alegria dos laboratórios. (...)

"Sei que a conquista tá no topo da montanha de cadáver,
que não é só vampiro que vive de sangue no cálice.
Aprendi como seu palácio de Bankhan é construído,
que as lágrimas são o diesel da X5.
Que pra puta ter biquíni de pérola de água doce,
meu olfato tem que se acostumar com o córrego podre" (...)

Taí, Eduardo na sintonia perfeita do que há de mais importante na reflexão internacional sobre a militância política, hoje. Raiva justa e produtiva.

Mais um link, pra ver como as coisas se conectam. Recentemente morreu Suharto, ex-ditador da Indonésia nos anos 60, responsável por um dos maiores massacres do século XX, no Timor Leste (o amigo Sakamoto, que chegou a visitar o Timor, há uns dez anos, escreveu sobre o fato no blog).

Só que Suharto não era um ditador "do mal", era um ditador "amigo" dos Estados Unidos. Ele abriu as portas para as multinacionais pagarem miséria pra população de lá virar operária, ajudando a conseguir toda sorte de produtos manufaturados baratos para os americanos. Dá uma olhada neste documentário, "Os Novos Senhores do Mundo", do jornalista John Pilger (tá sem legendas, infelizmente). Também achei nos sebos, a partir de R$ 25, uma versão em livro, que inclui outras reportagens do autor, no Estante Virtual.

Um alerta: essa prática de exportar a produção para a Ásia, para conseguir produzir a um custo financeiro menor, não importando o custo social, também está acontecendo por aqui! Ferram-se os trabalhadores asiáticos, ganhando miséria, ferram-se os brasileiros, permanecendo desempregados.

16 Fevereiro 2008

Pelo método Bope de análise socioeconômica!

Aproveitando que lembrei o tema, quero lançar publicamente uma idéia. Já que o pessoal gostou tanto do filme, defendo a difusão irrestrita do método Bope de análise socioeconômica, como denomino!

Grosso modo: o pleibói da zona sul, na visão apresentada no filme (que já discuti aqui em posts passados), ao comprar um baseado, é o responsável final pelo destino do traficante que o policial é "obrigado" a executar, em função do "combate ao tráfico" (tsc).

Assim sendo, já que tanta gente gostou tanto disso, sugiro então que a mesma lógica, o método Bope, seja aplicada aos mais diversos campos da economia. Quem compra móveis e madeira pra casa sem saber se o produto é certificado pelo Ibama, tem de ser moralmente responsabilizado pelo desmatamento na Amazônia. É o mesmo com quem compra o frango ou o porco alimentados com a soja plantada no Mato Grosso (hoje, mais de 30% da produção nacional vem de lá) e também com quem faz tranqüilamente seu churrascão de domingo sem saber a procedência da carne (vários frigoríficos estão migrando para a região Norte), do carvão (uma boa parte vem de desmatamento ilegal ou de plantios extensos de eucalipto, sem preocupações socioambientais), ou até do aço dos espetos (e de panelas, automóveis, eletrodomésticos etc. etc. etc.).

Da mesma forma, quem tem carro a álcool, como eu, também é responsável pelas péssimas condições de trabalho dos cortadores de cana. No Mato Grosso do Sul, terra onde nasci, em vez de devolver as terras do sul do estado para os Guarani, o pessoal agora está entusiasmado é com a perspectiva de levar mais usinas de cana para as terras tomadas deles e fazer a bondade, a caridade de dar empregos para eles como cortadores, tirando qualquer perspectiva de autonomia para as mais de 30 comunidades desses índios na região (umas 40 mil pessoas).

Se você toma cerveja em lata, também é um pouco responsável pela sanha das multinacionais do alumínio pela construção de mais e mais usinas hidrelétricas nos rios da Amazônia, acabando com os peixes e terras de várzea que sustentam os ribeirinhos e índios e condenando-os a seguir para a periferia das grandes cidades da região, para viver em péssimas condições.

Parece duro? Parece piada? Não é. Nada de ficar deprimido e ir pro bar chorar as pitangas sobre o mundo cruel. A mobilização política diante dos desmandos das corporações transnacionais é tão ou mais necessária do que a luta partidária (aliás, as empresas têm grande poder sobre os políticos no show da democracia ocidental). O consumo consciente é uma necessidade crescente, nestes tempos de aquecimento global.

Como estou começando a me envolver política e profissionalmente com o tema, devo escrever mais sobre isso no futuro. Por enquanto, alguns links interessantes.

Um especial multimídia que fizemos na Agência Brasil sobre o tema do consumo consciente.

O site da Repórter Brasil, ONG na qual estou ingressando como colaborador. A RB começou há alguns anos a estudar/denunciar o tema do trabalho escravo no Brasil. Por meio dos estudos de cadeias produtivas, passou a participar de uma articulação para responsabilizar as grandes empresas pela maneira como suas matérias-primas são produzidas. Um dos resultados desse trabalho é o Pacto Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo.

O blog do kamarada Leonardo Sakamoto, que é o fundador da Repórter Brasil e tem doutorado sobre o tema do trabalho escravo.

O documentário canadense "The Corporation", que está disponível no You Tube em zilhões de partes, traça a história e faz uma análise poderosa sobre a história das corporações nos Estados Unidos, seu poder econômico, social e político. Tem histórias cabeludas... Infelizmente, não está legendado, mas não é difícil achar em DVD, nas locadoras e tal.

O relatório "Comendo a Amazônia", feito pelo Greenpeace em colaboração com a Repórter Brasil, entr outros, denunciando as conexões entre a devastação na Amazônia e o comércio internacional de commodities como a soja.

Nascimento aqui é mato



O homem que mata os inimigos da sua comunidade é um sujeito temido e admirado, em grande número de sociedades ao longo da história, ao redor do planeta. O matador arawete, por exemplo, dispensa (ou dispensava, não sei se a prática ainda existe) as etapas que os homens comuns têm de cumprir após a morte. Ele não será comido pelos seres do Além para depois ganhar novo corpo e "vida eterna". Como já matou aqui, ele já tem algo de divino neste plano.

(Por isso, também, a discussão recente sobre certa reportagem que acusava Che Guevara de ser um "matador cruel" em vez de um herói teve algo de ridículo. É evidente que uma boa parte das pessoas que admiram Che o fazem porque ele pegou em armas e enfrentou os opressores... É motivo parecido por que Lampião ou Robin Hood são lembrados até hoje, e a maior parte dos jornalistas não o é. Há exceções, como Brad Will. Quem morre na luta vai direto pro Valhalla,os vikings diziam, dizem).

Um exemplo óbvio de cultura que glorifica e valoriza o matador é a norte-americana. A liberdade nos EUA é, sobretudo, a liberdade de ter sua própria arma para se defender do outro (tsc) (mas o outro mais perigoso ali é o negro, como mostrou "Tiros em Columbine", de Michael Moore).

Não é, portanto, de espantar a repercussão de Tropa de Elite, o impacto que causou a figura do capitão Nascimento (Wagner Moura, de fato, acertou o tom, tem grande mérito na composição do personagem).

Como discuti posts atrás, porém, a questão é a ideologia (lembre: há a História e a historinha, sempre...) por trás de uma construção cultural como essa, em se tratando do Brasil (e dos EUa também). Uma coisa eram os tupi (os Yanomami, talvez, ainda preservem essa dinâmica) se enfrentando e, literalmente, se comendo, em uma disputa franca, de igual para igual, mano a mano.

Outra, muito diferente, é o que acontece no Brasil, os capitães Nascimento da vida real. Não há glória aqui. Não pode haver honra num país construído sobre a escravidão.

Nos últimos tempos, apareceram várias notícias que dão uma medida sobre esse policial matador da vida real. Hoje mesmo, uma notícia traz pistas sobre a covardia dessas figuras. Muitas vezes, elas não assumem, realmente, a responsabilidade por seus atos. Jogam-na nas costas de inocentes ou, simplesmente, se escondem. Não assumem seus métodos. Aliás, viram, esta semana, a novilíngua do presidente norte-americano? Afogamento no interrogatório não é tortura, segundo ele (bem, pelo menos, louve-se a coragem de defender de cara limpa as idéias que, por aqui, outros só cochicham).

Para perceber como esses atos pontuais compõem o sistema, surge uma oportunidade interessante. Em Pernambuco, têm sido desbaratadas e investigadas, desde o ano passado, várias quadrilhas de extermínio, compostas, é claro, em grande parte por policiais. São acusadas de ter matado, literalmente, milhares de pessoas nos últimos anos. As notícias dão conta de que havia várias pessoas importantes para a vida política da região entre as vítimas.

Na Baixada Fluminense, em 2006, pude entender um pouco mais sobre como esses assassinatos se relacionam com a dominação política.

Esta semana, aliás, me chegou o aviso de que o livro "Plantados no Chão", que trata exatamente do tema dos assassinatos políticos no interior do país, está disponível gratuitamente para download neste endereço.

Essa covardia é uma marca brasileira, como o carnaval ou o futebol. Uma covardia travestida de um heroísmo que não existe. Por aqui, os matadores não têm nada de divino. São cães cevados pelo sistema racista.