
Na década de 1840, segundo o levantamento da Manoela Carneiro da Cunha, no livro "Negros, Estrangeiros", calculou-se que o Brasil tinha cerca de 7 milhões de habitantes. Destes, cerca de 2,5 milhões a 3 milhões eram negros escravizados. Os "brancos" eram de 1 a 2 milhões (ponho as aspas porque não é possível dizer com certeza quem se dizia branco e era na verdade mestiço). O restantes, de 2 a 3 milhões, eram negros e pardos livres, além de índios.
É curioso que, em geral, a gente ouve muito sobre senhores e escravos no Brasil colonial, mas pouco sobre esses "livres". Há vários números, a própria autora citada acima apresenta uma lista deles, mas o essencial é entender que a parcela de "livres" era significativa.
Esses negros, índios, brancos e mestiços livres desempenhavam um papel muito importante na política do Estado, pelo que se nota na análise da autora. Eram uma espécie de "garantia", na cabeça dos governantes, contra a formação de uma maioria de escravos que poderia se unificar diante da dominação dos senhores. Não se tratava de mera fantasia, algo do gênero tinha acontecido no Haiti no início do século XIX.
Mas o que isso tem a ver com as calças? É que, pensando bem, de certa forma, esses "livres" correspondem a certa camada social que permanece até hoje. Daí a foto acima. Pode observar que os políticos norte-americanos têm se utilizado muito desse artifício de nomear pessoas de origem latina ou negra para legitimar as políticas lamentavelmente conservadoras dos últimos anos.
No vocabulário sindical, fala-se nos "pelegos", que fazem a acomodação no conflito entre patrão e empregado (lembrando o que acontece entre cavalo e sela). Esses "livres" acabam sendo mais ou menos isso, quando não são muito mais. Lembram-se de "Pai contra Mãe", o conto do Machado que citei posts atrás? Não por acaso, os bandeirantes mestiços que caçavam escravos eram chamados de mamelucos. Vale a pena conhecer a origem árabe do termo.
Abaixo, um trecho do manifesto que um grupo de trotskistas/hip-hoppers difundiu pela rede na semana passada, por ocasião da passagem da sra. acima pelo Brasil:
"Condoleeza Rice deve ser rechaçada, especialmente pelas negras e negros
Por Mara do Hip-Hop
A secretária de estado norte-americana, responsável pelo massacre direto de milhares de pessoas no Iraque, e indireto de milhões fruto do espólio imperialista realizado sobre os povos de todo o mundo, assina junto com o governo de Lula um plano de “ação conjunta contra a discriminação racial”. Não poderia haver nada de mais cínico vindo de uma das principais representantes do governo Bush, que em seu próprio país foi o responsável pelas não só pelas péssimas condições de atendimento às vítimas do furacão Katrina que devastou a região de Nova Orleans em 2005, como também enviou a Guarda Nacional armada ameaçando os moradores que permaneciam na região. A brutalidade com que foi tratada a ampla maioria da população composta por negros e pobres chocou o mundo inteiro. Isso sem contar o reacionário plano antiimigração aprovado pelo governo norte-americano, que inclui expulsão dos imigrantes, legalização de grupos armados que realizam verdadeiras caçadas a imigrantes nas fronteiras, e a construção de um vergonhoso muro na fronteira com o México.
Frente a isso, o movimento negro tem que rechaçar ativamente a presença de Condoleeza Rice no Brasil, partindo de uma ampla denúncia da política racista e reacionária que esta executa em seu país e mundo afora, cujos próprios negros são vítimas. É preciso que as negras e negros do país que lutam pela emancipação do povo negro combatam a visão de que Condoleeza Rice seria um exemplo de negra a ser seguido, e atuem no sentido de desmascarar seu papel reacionário, que se concretiza também nas políticas racistas comandadas por Bush. Este rechaço deve se estender ao ministro da cultura, Gilberto Gil, que como parte do governo Lula tomou a tarefa de realizar ao lado da assassina Condoleeza Rice um “tour” pelas ruas de Salvador. Uma vergonha. É preciso que o movimento negro, feminista, organizações de esquerda, estudantis, da juventude e sindicatos se unam para repudiar a vinda de Condoleeza Rice ao Brasil, e denuncie o caráter capacho do governo Lula."
Ressalva seja feita: acho discutível chamar o governo brasileiro de capacho. Acredito que, na conjuntura atual, é imprescindível ter alguém para fazer a mediação com o Império (no futuro, com o fortalecimento da Unasul, ou a criação do Conselho Sul-Americano de Defesa, talvez fique melhor). Mas, atualmente, o que seria de governantes como Chávez ou Morales, sem o apoio, muitas vezes sutil, noutras ocasiões explícito do Brasil?
Tá certo que às vezes a gente esperava mais dos caras (ok, beeeem mais, em certos contextos), mas acho que é hora de bola pra frente: se não ficarmos espertos, a coisa pode é piorar muito depois de 2010.